6.07.2009

Não é fácil - por Felipe Fernades

Nem mesmo bonito o texto que Ruy Filho escreveu para falar do Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade, em cartaz todas as quintas até 11 de dezembro, às 21h, no Centro Cultural Rio Verde. Aliás, é estranho, doloroso e incômodo.Cada uma das palavras agride e fere, sem piedade alguma, o corpo relaxado e confortável do espectador que, sentado numa arquibancada de madeira, sob as folhas de zinco do teto do galpão onde é encenado, sente penetrar as narinas, a traquéia, o esôfago, com textura e volume, o acre da ferrugem que sobe da chapa de ferro enferrujado sob os pés dos atores.Quando se ouve a pergunta: “Será que você não entende que não é preciso sofrer tanto?”A violência é ainda maior com proximidade física dos personagens, dos gestos e, especialmente, do tom e das cores das vozes de Guilherme Gorski e Diego Torraca, dos estalos dos golpes no rosto, do barulho dos objetos atirados ao chão, da água espirrada em meus pés, da música de Patrick Grant repleta de informações que levam ao entendimento de que a autotortura psicológica é sim um meio lícito para a recusa da prostração.A autotortura na peça da Cia. de Teatro Antro Exposto recupera a noção de que a dor provocada a si mesmo funciona, em analogia ao que diz o pensador Michel Foucault em seu livro Vigiar e Punir, como “estranha economia em que o ritual que produz a verdade caminha a par com o ritual que impõe a punição” (pág. 42).Isto porque, na sociedade conformista em que vivemos, o autosuplício psicológico - no sentido de se inquietar, tornar-se perplexo - deve ser compreendido também como um ritual político, porque faz parte, mesmo num modo menor, das formas pelas quais se manifesta o poder, e porque também permite que o “crime da conformidade” seja reproduzido e voltado contra o corpo visível do criminoso, fazendo com que ele, no mesmo horror, se manifeste e se anule.O que me leva a correlacionar o Complexo Sistema ao outro trabalho do Ruy, Entulho, com textos de Priscila Nicolielo. Nos dois trabalhos, é recorrente a idéia que o desconforto e o sofrimento, quando conscientes, propostos como uma forma de abandonar os preceitos de resignação, fazem parte de um maniqueísmo necessário para não permanecer na angústia duradoura do próprio desconforto e sofrimento quando ignorados em sua existência.A mensagem mais objetiva da peça é que enfraquecer a sensibilidade não quer dizer, entretanto, que se deve criar resistência a ela. É bem possível que não entendamos que não é preciso sofrer tanto. O texto do Complexo além de me indagar tal entendimento, diz que, todavia, por mais que desconheçamos a intensidade, é sim preciso identificar a dor. O que está em escolha é o modo de enfrentá-la. Mesmo porque conhecer é futricar em vespeiros, mexer em feridas e deixa marcas.Ruy não se considera dramaturgo. Bobagem, é claro. Além da formação estética perfeitamente reconhecível – os elásticos do início, as bexigas laranja, as taças de gelo em derretimento, as máscaras, as luzes frias e inquietas das laterais, o violoncelo, a ferrugem, a frieza da união de tudo isso – o texto tem uma força que prescinde, por outro lado, do volume de informações apresentado.Diferentemente de Entulho, desta vez, é o texto que precisa de imagens. O que me leva diretamente à minha crítica em relação a essa montagem e sobre a qual falávamos, em grupinho seleto ao redor de um pebolim, cerveja na mão, sob o céu nublado da noite de ontem: existe sim muita informação nesta peça para ser digerida ao mesmo tempo.Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade tem texto, estética da cenografia, movimentos precisos, corpos e almas. Além disso, existem ainda as sinapses que os ligam e que, por sua vez, devem estar concomitantemente conectadas à música de Grant para que, na soma de todos os fatores, tirando noves fora, o possível resultado da inequação se forme na cabeça de quem o assiste.Esse é o ponto mais delicado da peça. Lá na roça costumam dizer que “quem tudo quer, nada tem”. Muitas vezes, durante a encenação, fiquei com a sensação de que, por mais esforço que fizesse, eu jamais seria capaz de apreender todas as mensagens que ali estavam sendo passadas, enquanto em outras, constatei que eu não fui capaz de dar sequência a um pensamento que desenvolvia e que, por conta disso, acabou ficando incompleto e arquivado no meu fantástico mundo de Bob.O que, ainda durante o brainstorm na pós-apresentação, quando Mme. Nicolielo tentava arrancar de mim uma opinião mais lapidada, me levou, pseudo-intelectualóide, a recobrar as categorias de pensamento postuladas por Hegel para a reflexão entre o tudo e o nada presentes na montagem de Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade.O filósofo diz:tão correta quanto a unidade de ser e nada é porém também que são absolutamente distintos — que um não é o que o outro é. Apenas, uma vez que a diferença aqui ainda não se determinou, pois justamente ser e nada são ainda o imediato, ela é, como se encontra neles, o indizível, a mera opinião. [HEGEL, G. Enciclopédia I, § 88, p.188]Essa diferença, em Complexo, não se torna jamais precisa, porque ela não é capaz de superar o status de ilusão que nos dá o teatro, o palco. Isto é, os meus pensamentos incompletos, frutos da má digestão de um esfomeado diante de uma mesa farta, são indicativos de que o “tornar-se” não pode ser nunca a identidade do ser absoluto e do nada absoluto justamente porque é diferente tanto de um quanto de outro, que são idênticos.O que, para resumir a ópera, torna-se também, no final das contas, paradoxalmente, um dos pontos mais fortes da montagem escrita e dirigida pelo Ruy: o “tornar-se” recorrente no texto do Complexo contém em si o ser e o nada, de tal maneira que esses dois se transformam um no outro e se superam mutuamente. É nesse momento que, com rato ou não percorrendo o chão do galpão onde a peça foi apresentada, aquele que está disposto atinge um grau de superação que lhe tira do lugar-comum.É por causa disso que, mesmo incapaz de entender tudo, não se pode dizer que ali, com Gorski violentamente seduzindo a platéia no mais elevado nível da síndrome de Estocolmo, não existe apenas o nada. Existe o limite, o máximo que se pode ir e onde, por vias muito dolorosas, chega-se arfando: o “tornar-se” mostra-se inquieto, mas incapaz de se manter nessa inquietação abstrata, somatizando o sofrimento em pensamentos, em confusões, em autotortura.“Será que você não entende que não é preciso sofrer tanto?”O resultado desse processo não é apenas o nada vazio, mas a consciência de que sua posição diante da realidade em que se vive e da intensidade com que a transformamos em afirmação do sofrimento faz, como resultado de tudo, a negação da dor valer o necessário para a compreensão daquilo que alguém repete por aí: a dor é inevitável, o sofrimento é opcional.É nessa horinha, nesse intervalo entre uma piscada e uma expiração, que o “tornar-se” passa a ser chamado de “estar aí”.Espero que aproveitem. É do caralho.

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